Como explicar o fascínio de um caleidoscópio? Queremos rever, aprisionar, entender aquelas imagens. Apego, transcendência, imortalidade, permanência, o todo projetado em cada parte. Mil formas em movimento constante, num jogo indescritível, nunca repetido, como a corrente de um rio, como a vida. Somos filhos do fogo, da luz, do brilho. Buscamos retornar a um estado leve, puro, novo, livres do que acumulamos ao longo da existência. Desejamos ser como uma página em branco. Como simples cristais, translúcidos. Buscamos o que éramos antes. Como num caleidoscópio, giramos: átomos, partículas; às vezes colidimos, esbarramos, tomamos novas formas, transformamos, recomeçamos. Mas precisamos reafirmar nossa presença. Precisamos testemunhas dessa nossa viagem. Quem admira nosso rodopiar através das nebulosas? Onde está o olho que nos vê?
A prima tem uma coleção de botas. Com padronagem xadrez, com franjas à moda country, uma preta "clássica", outra com cano longo que 'fecha com cadarço e zíper'. Enfim, é muito fashion esta prima.
Estávamos saindo para levar o pequeno à aula de inglês, quando ela dá falta do celular. Começamos a procurar pelos lugares óbvios, dentro da bolsa, na mochila do pequeno, sob os bancos do carro, no porta-luvas. Nada de achar. Então liguei do meu celular para o dela, certas de que ouvindo o toque chegaríamos até o perdido. Recomeçamos a investigação orientadas pelo toque. Estava perto, muito perto. Mas onde?
A prima sai do carro a ver se o dito cujo não está caído na rua, do lado de fora da porta ou mesmo embaixo do carro. E naquele momento noto que o som está se afastando. A prima volta, o som aumenta. Que mistério é esse? Apalpa os bolsos do jeans e os do casaco. Nada. "Ah quer saber? - diz ela -, vam'bora, senão a gente se atrasa. Ele vai aparecer."
Quando a prima se senta ao voltante pra dar a partida, sente um certo incômodo.
- "Mas não é possível!" E cai na risada. Todo aquele tempo, o bendito celular estivera dentro do cano longo da bota que 'fecha com cadarço e zíper'! Tá vendo? Além de super fashion's, têm utilidade prática as botas.
Não terá sido à toa, Machado colocá-las a dialogar naquela praia deserta de Sta. Luzia.
Comecei a envelhecer quando um certo movimento, que me deixava com expressão tão abobalhada no rosto, deixou de me interessar. Afinal que inveja posso ter de quem consegue levar o próprio dedão do pé direito até a boca? Nessa mesma época, deixei de girar o dedo dentro de cada narina e depois levá-lo à boca, porque descobri outras formas bem mais interessantes e protéicas do que minhas próprias melecas. Perdi o interesse também por pão com açúcar e manteiga, dulcíssima iguaria que embalava minhas tardes. Nem mesmo liguei ao perceber que não me transformaria em Jeannie, a gênia, desparecendo, apenas com um aceno de cabeça, com as tarefas domésticas e repetitivas. Também não me aborreci, só estranhei um pouco, alguns anos mais tarde, quando um bando de aborrescentes chamou-me de tia ao pedir uma informação, por favor. Reagi com dignidade até mesmo quando numa dessas vezes quem me chamou assim tinha, no mínimo, uns 10 anos a mais que eu. Noutro dia ouvi, à minha passagem: "Hummm, a tia aí ainda dá um bom caldo". Preferi pensar que fosse com a mulher ao meu lado. Na sequência, os vendedores começaram a me tratar por senhora. "A senhora deseja algo? Posso ajudar, senhora? Assine aqui, senhora, por favor." Fui me acostumando a me entrincheirar atrás dos comentários comparativos que bondosos amigos vez em quando faziam: "Ih! nem se compara, você dá de 1000 na fulana..." "Sério? já fez 50? Nem parece..." E, quando fui avisada por um deles, muito bem intencionado, aliás, de que havia cabelos brancos na parte de trás de minha cabeça, nem liguei; comprei minhas tinturas e, hoje, já nem sei mais que tom tem a cor original de meus cabelos. Mas e daí? De que me serviria saber? Mas, dias desses, finalmente perdi todas as esperanças de vencer a guerra. Me dei conta de que pouco a pouco venho perdendo batalha por batalha, cada uma das trincheiras caiu em mãos inimigas. As tinturas, os cremes para dia, para noite, as massagens, os elogios (que agora me soam educadamente piedosos), os truques de maquiagem, nada teve valia, porque o inimigo é aquele que mais feroz fica quanto mais eu corro dele. Finalmente caí do salto, capitulei, entreguei o ouro ao bandido, quando o primeiro fio de cabelo branco surgiu na sobrancelha. Ah! Péraí. Aturei tudo, tudo. Não podiam me deixar ao menos isso?
A data que o aço grava na lápide e que os livros paroquiais registram é posterior a nossa morte; já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estou morto. Poema “O palácio”, Jorge Luis Borges
A mulher se senta, à tardinha, num toco da árvore velha que precisou ser podada, como num banco improvisado, jiboiando, sentindo o calor do sol e o seu cheiro - sim, afirma que do sol emana um perfume que se existisse engarrafado, e se o preço fosse acessível, gostaria de usar. É do tipo que pensa em preços acessíves, sonhos e amores possíveis. Não se lembra muito dos sonhos noturnos. Só dos muito marcantes, como aqueles que sonhava na época em que fazia análise. É de olhos bem abertos que gosta de fazer planos. Roteiros de viagem, principalmente. Um dia pensa em conhecer Portugal e Espanha, seus castelos e os resquícios da passagem árabe por ali, catedrais européias, a cidade de Londres, os campos escoceses. Lugares citados em livros, músicas. Planos guardados a sete chaves. Já passou por muitas experiências, mas continua trazendo os olhos vivos, brilhantes, de quem se surpreende sempre com novas descobertas feitas em pessoas, livros, atlas; ou com gatos brincando de esconde-esconde, lagartos imóveis nos muros quentes, imagens do deserto da Austrália e do povo turco na época em que habitavam subterraneos. Naquele momento só quer receber o calor do sol, sem pensar em nada. Nem planos, nem compromissos. Os dois cachorros correm pra receber seus carinhos, sabendo que sempre são bem recebidos quando ela aparece naquela parte do quintal. O mais forte deles traz um pedaço de pano que vem carregando no focinho, serelepe, gingando e abanando o rabo, querendo brincar de cabo de força. São cães felizes. Finalmente ela se levanta, já satisfeita com a reserva de calor que armazenou no corpo, na pele agora morna onde o sol se banhou. Felizes ela e o sol em cumprir seus papéis na engrenagem.
Aos trinta anos Zaratustra afastou-se da sua pátria e do lago da sua pátria, e dirigiu-se à montanha. Durante dez anos gozou por lá do seu espírito e da sua solidão sem se cansar. Variaram, no entanto, os seus sentimentos, e uma manhã, erguendo-se com a aurora, pôs-se em frente do sol e falou-lhe da seguinte maneira: "Grande astro! Que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas? Faz dez anos que te apresentas à minha caverna, e, sem mim, sem a minha águia e a minha serpente, haver-te-ias cansado da tua luz e deste caminho. Nós, porém, te aguardávamos todas as manhãs, tomávamos-te o supérfluo e bendizíamos-te. Pois bem, já estou tão enfastiado da minha sabedoria, como a abelha quando acumula demasiado mel. Necessito mãos que se estendam para mim. Quisera dar e repartir até que os sábios tornassem a gozar da sua loucura e os pobres, da sua riqueza. Por essa razão devo descer às profundidades, como tu pela noite, astro exuberante de riqueza quando transpôs o mar para levar a tua luz ao mundo inferior. Eu devo descer, como tu, segundo dizem os homens a quem me quero dirigir. Abençoa-me, pois, olho afável, que podes ver sem inveja até uma felicidade demasiado grande! Abençoa a taça que quer transbordar; para que dela jorrem as douradas águas, levando a todos os lábios o reflexo da tua alegria! Olha! Esta taça quer novamente esvaziar-se, e Zaratustra quer tornar a ser homem". Assim principiou o ocaso de Zaratustra.
Advinha o que comprei? O quê? O novo do Pink... The Wall. UAU. A gente podia combinar pra ouvir junto, que tal? É tudo o que eu quero. Você traduz as letras. Pode ser sábado? Pode, mas eu tenho que cantar no casamento daqueles nossos amigos... Sem problema, você vai direto pra igreja lá de casa. Então tá combinado.
Cinco litros de vinho tinto, lp na pickup, pausas pra traduzir letra a letra, e tome vinho e Comfortably Numb, tome vinho e Hey You. Mais um pouquinho? Hummm muito bom este vinho. Vera, Vera! Vera! What has become of you, Vera! Vera! O que aconteceu com você? Ok, essa é fácil até pra mim... Sons de helicópteros assustando as outras casas da vila e os dois cantando junto. Tá na hora de ir embora. Pôxa, que pena. Mas como? tonto? Você está tonto? Ou mai godi. E agora? Os outros vão perceber que você está praticamente, ligeiramente bêbado! Mas eu tenho que ir pra igreja e cantar no casamento, não posso faltar. Tudo bem, vou com você até o ponto do ônibus pra dar uma força. Quer um café? É bom, né? Ajuda a cortar. Vamos lá. Muitos ziguezagues e muitas gargalhadas pela rua. Olha lá o ônibus, faz sinal. Beijos, foi o máximo esta tarde, né? Se foi! Depois me conta como foi o casamento. Ok. Tomara que ninguém perceba. Sei... Isso é pedir demais. Mas valeu a pena. Pink Floyd vale qualquer sacrifício. A gente é muito doido. Que nada.
"Pois é. Valeu tanto a pena que é um dos dias inesquecíveis na vida do rapaz. O primeiro porre. Sabe-se lá como, chegou ao seu destino e tropegamente informou em alto e bom som que estava muito doido. Protegido pelos amigos, fez pura figuração ao cantar no casamento. Mas o que importava? A viagem era eterna e os helicópteros ainda soavam na cabeça. Apocalipse now? Não. Apenas Pink Floyd. E ele se sentindo comfortably numb."
Os trens se cruzaram e pararam antes de chegar a plataforma. Isto acontece frequentemente. Passageiros de um e outro aproveitam estes momentos para se olharem, se avaliarem, através das janelas de guilhotina. O casal se reconheceu naquele dia. Já haviam se visto outras vezes, cada um a seu modo atraído pela figura do outro. O soldadinho bem apanhado, no rosto um quê de quem vive de bem com a vida. A moça séria, jeitosa, muito bem arrumada, nos saltos - embora na volta do trabalho ela já esteja se achando meio decomposta. Ele lhe disse, mais tarde, que a achara bonita, e ela, no fundo, no fundo, acredita, com um tiquinho de modéstia. Sempre fora cuidadosa com a aparencia, copiando os modelos das moças mais elegantes de sua época, estampadas nas revistas que um tio vez por outra lhe compra: Cruzeiro, Manchete, a Revista do Rádio. Olha atenta as fotos de Angela Maria, Emilinha, as capas das partituras onde modelos exibem seus vestidos de baile, ombros nus enfeitados com camélias e colares de pérolas. Ainda naqueles minutos de espera entre estações, os dois trocam sinais combinando o provável encontro. Ele olha o relógio calculando o horário do trem em que ela está (e esta regularidade ainda hoje é usada por casais), para não perdê-la de vista. Nicinha está vindo do centro da cidade, onde trabalha numa fábrica de sapatinhos para bebê. Ele, do quartel, algumas estações acima. No dia seguinte, já estava na plataforma quando o trem dela chega. Caminharam juntos até o bonde em que ela vai para casa. Depois até o ponto onde ela salta e, em breve, até sua casa. Um irmão é escalado para não perdê-los de vista no trajeto. Finalmente Chiquinho pede permissão para namorá-la ao pai severo. Passam a se ver todas as quartas e sábados. A mãe da moça constantemente o interroga sobre suas intenções. Todas muito boas, pensa e responde o rapaz. O próximo passo para o compromisso, é conhecer a família dele. Mais uma vez é o trem que os leva até lá. Nicinha costura um belo vestido para o dia, listrado em verde, azul-marinho, amarelo; bem franzido, gola canoa e mangas japonesas. Prende o cabelo num rabo-de-cavalo e usa saltos altíssimos. Fêz muito sucesso quando apresentada aos pais dele. A futura sogra lhe conta histórias do seu menino, o quanto ela penou para sustentar a ambos quando o marido foi embora, até casar novamente; e de como o padrasto o ama, como a um filho. Falou do tempo em que seu menino sofria tocando boiada, dias, semanas, longe de casa, comendo o que dava, bebendo água de chuva. Contou da determinação dele em melhorar de vida, em sair dali e ir pra cidade grande. O quanto sofreu quando o rapaz foi mesmo embora, imaginando se ele tinha onde dormir, se sentia frio. Aqueles primeiros dias longe de casa, o rapaz dormiu foi em banco de praça mesmo, até que localizasse os padrinhos que o acolheram e ajudaram a arranjar emprego. Mas olha só pra ele agora, fardado, orgulhoso da carreira. Gostaram-se muito, logo de início, sogra e futura nora. E esta vai pra cozinha fazer uma bela duma galinha pro almoço. Enquanto isso, pai e filho têm uma conversa num canto e o pai lhe assegura que não vai permitir que trate esta moça como às outras que namorou. Será que ele percebeu que esta não é como as outras? Que ele tome tenência, crie juízo. Claro que o rapaz já decidiu que esta é pra casar e é o que ele vai fazer: se assentar, parar de pular de galho em galho, de se engraçar com moças comprometidas, a ponto de ter que brigar de faca, de chegar em casa com a camisa em farrapos após cair no meio de espinheira, fugindo de brigas com namorados (e até maridos) traídos; já estava cansado da vida de andar armado para o que desse e viesse. Ele tem que sossegar. É o mais prudente a fazer. O casamento aconteceu no mês das noivas, maio. No civil ela foi de vestido lilás-rosa, combinando com solidéu preto, de véu e peninhas da mesma cor do vestido. No religioso, cetim prata com botões encapados no vestido de talhe princesa, uma cauda que chegava quase até a porta da igreja quando já estavam no altar. O buquê que levava era de copos-de-leite naturais e o bolo tinha o tradicional casal de noivos no último dos três andares. O trem continuou a fazer parte da história deles, nas visitas à família, no dia em que levaram o bebê para os avós conhecerem, naquela vez em que perderam uma cunhada numa estação (mas esta é outra história...). Ainda hoje, de manhã bem cedo, quando o vento é propício, escuto a melodia e o ritmo do trem chegando e saindo da estação.
Trens sempre se cruzam trazendo gente que se reconhece e que decide seguir juntos a viagem da vida.
1 - O Detetive Cantor, filme com Robert Downey Jr. sobre um homem que desenvolve psoríase decorrente de trauma. Está num hospital em tratamento e mistura, em seus delírios provocados pela medicação, sua vida à dos personagens de seus livros. Mel Gibson, quase irreconhecível, é o terapeuta que descobre, ao lê-los, o fio da meada, o objeto do trauma e o modo de curá-lo. Assim, o detetive cantor começa a enxergar que a pista para sua cura, está naquilo que pensa ser fantasia e que transforma em enredo de seus livros. O paciente é produto das músicas que ouvia nas rádios e dos livros de detetive que lia quando criança. Os musicais que aparecem no filme são a expressão das emoções e lembranças do personagem. A cura vai se processando de dentro para fora ao longo do filme, em que vemos também, cenas dos livros, musicais, flash backs. Roteiro formidável, surpreendente, e trilha sonora escolhida a dedo pra gente cantarolar junto.
2 - O Perfume, de Patrick Suskind, o livro e o filme se completam. A procura de Jean-Baptiste Grenouille pelo seu próprio cheiro e ele quer o mais puro aroma que pensa existir, é de um simbolismo extremo. Um ser humano que passa desapercebido; que não exala nenhum 'perfume'; a quem nada atinge etica, moral ou espiritualmente; que não se detém enquanto não atinge seus objetivos, é emblemático.
3 - Alguns livros marcam minha vida, entram na lista de leitura obrigatória. Um destes é 'Se um viajante numa noite de inverno' de Ítalo Calvino.Um livro que se auto-apresenta, que se coloca na pele de quem o está lendo, que sugere posições para ser lido, que divide a tarefa da escrivinhação com o leitor, que brinca com o próprio ato de ler (e escrever) e que depois mergulha num labirinto de 'links' onde um livro leva a outro e a outro... e que nunca é concluído...Genial, ousado, surpreendente, desafiante, profético e atualíssimo (foi escrito em '79). Perfeito para quem saboreia e ama esse objeto feito de papel, tinta e palavras. Perfeito para quem gosta dos bastidores da criação da literatura e, claro, para quem não se importa em ficar sem saber o final da história...
4 - Apocalypto (um novo começo) de Mel Gibson é violento do princípio ao fim, da explícita caça ao javali até a chegada dos espanhóis - a violência subentendida. Mas enquanto torcia por Jaguar Paw, o protagonista, não por sê-lo, mas porque também eu queria que ele escapasse e conseguisse libertar sua esposa do poço e... nada vi que já não tenha visto ou sabido. O filme não é mais violento que o dia-a-dia de tantas 'comunidades' brasileiras ou tantas tribos africanas.Apesar de ser a marca da direção em A paixão de Cristo ou Coração Valente, a violência não me desviou do que intuí ser a verdadeira intenção do filme: mostrar a luta de um homem sozinho contra tantos opressores, tantos rituais, tantas perdas, tanto sangue, para conseguir voltar para o seu amor, sua família. Uma ode à resistência do homem comum.Aliás, como tantas vezes vimos - e tantas vezes ainda veremos -, o pacato e honesto cidadão, apesar de tudo e todos, vivendo apenas por e para isso: seu amor, sua família, seu cotidiano 'banal', enquanto a História vai sendo tecida em maledicência, traição, demagogia, manipulação, enganação, jogo sujo, guerra, sangue, morte. Contrastando com a esperança, com o sonho que o homem tem de simplesmente ser deixado vivo, para viver a sua vida. "A man wants to work for his pay A man wants a place in the sun A man wants a gal proud to say That she'll become his lovin' wife He wants a chance to give his kids a better life Well hello brother, hello, yeah" (na voz de Louis 'Satchmo' Armstrong).
5 - Piaf, um hino ao amor, de 2007 e Frida (Kahlo), de 2002. Vidas intensas de mulheres idem. As duas superaram suas tragédias pessoais através da arte. Sofreram no corpo e na alma. Os quadros de Frida Kahlo e a voz pungente de Edith Piaf ultrapassam todas as barreiras que condição sexual, histórica ou atávica poderia ter paralisado. São dois filmes biográficos, com atrizes - particularmente Marion Cotillard - que encarnam talentosamente suas personagens. E onde trilhas sonoras particularmente belas, pontuam momentos históricos e as vidas singulares destas mulheres que nos legaram arte autêntica, visceral, a pura expressão de seu sofrimento.
6 - O filme A Última Ceia é frio, cortante, amargo, direto. Como a miséria, como o ódio racial, como o remorso. Três gerações de guardas prisionais morando juntos. Um presidiário negro será executado em algumas horas. Seu último pedido, desenhar. O presidiário tem um filho que também desenha, aparentemente sua única forma de expressão. No restante do tempo, sofre pressão da mãe que não o aceita como é, gordo, mudo, devorando obcecadamente todas as guloseimas da casa. Mas o que na verdade ela não aceita é a vida que está levando, à procura de emprego, às portas de ser despejada do lugar pobre em que mora, às vésperas de se tornar viúva, obrigada finalmente a andar a pé, pois o carro também morre. Os guardas Hank e Sonny encaminham o preso para a cadeira elétrica. O jovem Sonny fraqueja e apanha de Hank na frente de outros guardas que tentam impedir a surra. Um deles é negro e Hank exige que tire suas "mãos sujas" de cima dele. Em casa, Sonny desfere ao pai uma única pergunta: "Você me odeia?" Ouve a afirmativa de Hank e responde: "Eu, ao contrário, sempre o amei" e se mata com um tiro. Hank e seu pai o enterram no quintal ao lado de suas duas mulheres. Logo a seguir, Hank pede demissão e compra um posto de gasolina. Passa a frequentar a lanchonete em que a viúva do negro executado está trabalhando. Dá carona pra ela. E os socorre logo após a mulher ter seu filho atropelado na auto-estrada. O menino morre e ela se desespera com a perda dele porque é como se perdesse sua última tábua de salvação, o que ainda a mantém indo em frente. É quando um romance inicia-se entre eles. Tórrido. Desesperado. Algo como uma chance de ainda tentarem algo próximo do amor. Eles se precisam. Cada um por seus motivos. Remorso, sobrevivência? O homem dá o nome dela, Leticia, ao posto recém-comprado e o carro que fora do filho. Em troca ela lhe compra um chapéu. Vai a casa dele com a caixa do presente que é avaliado pelo pai dele que percebe o que está acontecendo e lhe diz que Hank segue as tradições, porque "homem só sabe bem o que é uma mulher quando transa com uma negra". Ela não precisa dizer mais do que "Conheci teu pai" para que Hank leve o velho para uma casa de repouso, porque "ali tratarão bem" dele. Então é isso. Assim, sem titubear. Faz o que julga ser preciso para alcançar a nova vida ao lado dela. Pinta e enfeita a casa, recoloca os móveis nos seus lugares e busca a mulher. Diz-lhe que quer cuidar dela ao que ela lhe responde "isto é bom, porque eu preciso de alguém que cuide de mim"... Enquanto ele sai pra comprar um sorvete pros dois, ela anda pela casa e encontra fotos de Sonny e os desenhos que seu marido fizera dos guardas prisionais antes de sua execução. Entende tudo: quem é aquele homem, o que ele está tentando fazer; e o que ela mesma está fazendo ao lado do executor de seu marido?. Se debate, chora, revolta-se contra a vida que lhe prega mais esta peça. Quando ele volta com o sorvete, automaticamente aceita que lhe dê colheradas na boca, olha do rosto dele para o céu, depois para os três túmulos existentes no quintal, de novo praquele homem sentado ao lado dela, compartilhando um sorvete, aparentemente tão simples, um homem e uma mulher sentados na porta de sua casa à noite, tomando sorvete. Suas trágicas histórias particulares serão regeneradas através daquela união?
Citações
Cuidado com o que você pede. Você poderá ser atendido.
Nunca faças aposta. Se sabes que vais ganhar és um patife, e se não sabes, és um tolo.
Observe! quanta coisa existe de que você não precisa para ser feliz...
“Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo, a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro...” (Clarice Lispector)